O Rio Sergipe: Rio das Lágrimas, Ressacas e (d)obras
Entrei no Rio Sergipe, uma onda bateu de leve nos meus lábios e senti seu gosto de água salgada... O sal na boca me trouxe a lembrança de como me contaram que as águas do Rio Sergipe ficaram salgadas.
Disseram-me que foi devido a perca do professor Franklin, ao saber que ele morreu, vários dos seus alunos choraram sentados todos a margens do Rio Sergipe, chorando longamente despertava comoção nos demais, cada lágrima que caia, salgava mais o rio. E assim o rio doce foi ficando salgado de tristeza, de dias e dias que as pessoas se reversavam em luto a margem do rio pelo professor que tanto eram afeiçoados... Porém não sei se as lágrimas salgadas que se misturam as águas do Rio são apenas dos alunos do professor Franklin...
O Rio Sergipe silenciosamente tem acolhido as lágrimas...
O rio já acolheu as lágrimas de gente que nunca chorou na frente dos filhos... Do canoeiro que viu a ponte ser construída, e chorou com o rio que é seu cumplice, e as ondas, que eram o único superior em seu trabalho, levaram todas aquelas lágrimas... Talvez venha daí sua resistência, o rio que consola e as ondas empurram as to-to-tos que se mantém deslizando, ainda que com poucas travessias, pela paisagem do Rio...
O Rio ampara as lágrimas dos velhos... os velhos que transitam a cidade, ocupa as praças, sentam-se nas calçadas ... Os velhos que sempre estão dispostos em falar... que contam o passado que nos roubam, que não sabemos... eles choram porque não querem morrer e serem sepultados com suas histórias... histórias de vida, de movimento, de potência...
O Rio amparou as lágrimas do moço que sorriu quando ouvi falar que na sua cidade chegaria o progresso. É que esqueceram de dizer o progresso de quem... sua rua continuou sem progresso algum ... o progresso só chegava onde ele não era convidado, “bem visto”, ou acessível ao seu bolso ... e quando o tal progresso chegou a sua rua, ele teve que sair dela.
O que há, persiste não parece interessar, não parece afetar. Surge uma cidade nova como se houvesse um espaço neutro, uma tela em branco, um marco de começo, com dia e hora marcada.
A cidade expande-se, verticaliza-se , pisoteia , espreme, e nos empurra para margens... margens de um rio que parece a cada dia estar mais salgado ... e também a cada dia mais vivo. Ao mesmo tempo que ele afunda lágrimas, provoca turbulências dentro de si, ressacas, pequenos tsunamis, como uma ressaca nos regurgita de volta a cidade.
“ (...) Portanto é preciso dizer que um corpo tem um grau de dureza assim como um grau de fluidez, ou que ele é essencialmente elástico, sendo a força elástica dos corpos a expressão da força compressiva ativa que se exerce sobre a matéria. A certa velocidade do barco, a onda torna-se tão dura quanto um muro de mármore."
(DELEUZE, 1988, p.18)
Voltamos para a cidade-corpo ocupando-a, transitando-a, como ressacas marinhas que quebram construções perto de margem, quebramos as propostas dos espaços arquitetados e disciplinados. E como as ondas dobram as águas do rio, passamos a dobrar os territórios da cidade, dobras de caos e desejo de habitar... cheiros , sabores, pichações, sons são nossas dobras e redobras nos espaços, elas escapam, percorre labirintos, não há como apanhar e lança-la fora. “Diz-se que um labirinto é múltiplo, etimologicamente, porque tem muitas dobras. O múltiplo é não só o que tem muitas partes, mas o que é dobrado de muitas maneiras.”(Deleuze, 1988, p. 13-14)
Devir-cidade, cidade-corpo... riscam a cidade como um espaço neutro, passando concreto, asfalto, fumaça na nossa sensibilidade viva, mas sem conter a nossa força de ressaca , criação, desdobra. Se dobram com vinco firme, desdobramos tudo como a sutileza do nosso contato íntimo com a rua dos nossos pais, com nossos dos sons, grafites, ocupações de gente que cartografa, que é mata de galeria das memórias deste rio salgado.
Texto :Rafaela Barreto
Bibliografia
DELEUZE,Gilles. A Dobra: Leibniz e o Barroco. 1ª ed. Campinas: Papirus, 1991.
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