ENCONTROS CÓSMICOS, INTENSIDADES TURBILHONARES
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| Tunga fotografado por Ivan Cardoso |
*Texto escrito por Leonardo Leite de Andrade e Barbara Távora de Sousa Martins
O
raio incide sobre mim. Sou um menino num traje de flanela cinza. Ela me
encontrou. Um toque na nuca. Ela me beijou. Tudo se fragmenta.
Virgínia Woolf – As Ondas
Virgínia Woolf – As Ondas
[carta
nº1]
Encontros. Olhares. Potências.
Dores. Devires. O que pode um corpo? Sempre pergunta Baruch de Espinosa,
filósofo judeu, potente, imanente, transgressor. Sempre uma pergunta incessante no âmago do
pensamento, em seu emaranhado: O que pode teu corpo? Que linhas e signos passam
por ele?
Só se pode medir um corpo, a partir
daquilo que ele pode, de que agenciamentos ele é capaz de acoplar, dobrar,
desdobrar, conjugar (cf. DELEUZE; PARNET, 2004). Num encontro tudo é possível,
é onde se operam os roubos, é onde operam as grandes sínteses e florescem
assim, todas as hecceidades, toda a
diferença. Só é possível o roubo e criação no encontro. É simples. Está ai, no emaranhado de linhas, nas curvas,
nos enlaces, nos fluxos.
É sempre curioso começar um texto
com perguntas...Gostamos sempre de inúmeras delas, pode dar até a impressão de que
poderemos assim seguir certa linearidade do pensamento e da experiência do
texto, da leitura, da criação, mas o perigo encontra-se sempre aí e é sempre
outro, começar com perguntas e indagações num texto, é sempre um pretexto para
nocautear o leitor, autor-leitor. Proferir indagações num texto é sempre
construir máquinas de guerras, hidráulicas, que fazem correr fluxos diversos,
sem freio, num espaço liso; é sempre levantar bandeiras para sentir o vento
passar por sobre as linhas, dando-lhe rumos diversos. Aonde iremos parar? Não
sabemos... o rumo das perguntas é sempre alguma coisa que desconhecida, alguma
coisa que seja terras inexploradas. O rumo das perguntas, é sempre encontros
nunca vivenciados; o texto deixa aqui de ter o direito de ser inerte, a
imagem-texto perde sua qualidade de captura, e passa a transbordar por inúmeros
lados, inaugura um texto-intervenção. Um texto-roubo criativo. Um texto
provocador de encontros, arrastando consigo potências diversas, do autor, do
leitor, do autor-leitor, do leitor-autor... Perde aqui também toda qualidade de
revogar para si uma identidade, que serve a identidade, no campo das
intensidades, dos encontros? Autor e leitor tornam-se um só. Um agencia o
outro, e um outro, um outro, um outro... Um rouba o outro, e agencia com um
próximo, sempre em movimento. Sempre mestiçando, nomadizando, bagunçando, os signos.
O roubo é isso, e muito mais. A
qualidade de poder tomar por agenciamento moléculas diversas. Turbilhonar toda
e qualquer segmentaridade. Abrir a
caixa de dos hieróglifos, e construir um nova linguagem, um nova arte,
repetindo e produzindo diferença. Repetir, repetir e elaborar novas savanas.
Impossível escapar do roubo, impossível escapar dos encontros. Não há mística
maior que a sensibilidade dos encontros. Caos. O segredo da mística serpenteia
todo o corpo, não o organizado, sedimentado, extensivo, mas sim o intensivo, o
molecular, o vibrátil.
Para Espinosa, há duas qualidades
de encontros, os que conseguem agenciar paixões alegres e os que agenciam
paixões tristes (DELEUZE, 2009. Pg. 32). Sem juízo de valor, somente
intensidades. É sempre uma relação de forças. Não há como escapar delas, e há
sempre um roubo envolvido, sempre há paixões no meio; A paixões alegres aumentam
as várias potências de agir, do corpo intensivo, já as paixões tristes diminuem
a potência de agir do corpo. Devires intensivos, ou devires de morte? O que
pode teu corpo? "Experimente, mas é preciso muita prudência para
experimentar" (DELEUZE;PARNET, 2004. pág. 50). Há muitas paixões tristes
que nos arrastam para buracos verdadeiramente negros, paixões que fazem se não,
alterar nossa velocidade para um número tão cansado, um numerante, ou um numerador.
O que pode teu corpo Barbara? Que
signos lhe tocam? Que afetos tu é capaz de fazer deixar passar por entre as
intensidades e curvas de teu corpo? Observas que com minhas perguntas lhe
arrasto por entre caminhos, oras parecidos, oras completamente dispersos?
Observa Bárbara... Estás num labirinto. Corte o fio que te trouxe até aqui!
Imaginas sobre os encontros, não em suas qualidades extensivas, métricas,
espaciais, mas no caos que habita no intermezzo.
O caos nada tem de maldoso, o caos acompanha a tênues linhas que cria a vida,
tal como a aranha constrói a tua teia. O caos é a produção de rizoma, a
produção de pensamentos, linhas, tudo o que está ai. O caos é em si a própria
vontade de potência, o caos que cria. Só é possível conhecer um corpo, diz
Deleuze, quando se faz uma lista dos afetos deste corpo. Pura ironia! O caos
impede qualquer tentativa de diagrama, pois estar sempre pro criar-se,
proliferar-se. É ai que a cartografia é o maior dos roubos. Construir um mapa,
infinito, que nunca se finaliza, tal como a bactéria que prolifera, tal como a
erva daninha que se espalha arrastando os seus devires imperceptíveis. Construa
teu mapa!
[carta nº2]
Uau! Ao receber esta mensagem um embrulho
de instigações filosóficas me tomaram de jeito tal que imanentemente respirei
fundo, bati nas profundezas do questionamento de Espinoza e pensei: De onde
partiu essa busca que me leva a uma viagem com destino ao interior do meu
interior? O que eu posso? O que eu sou? Busco uma verdade? Busco uma resposta?
Busco um sentido? Estou a buscar no lugar certo? Dentro? Fora? É, “o que pode o
meu corpo”? Se só posso medir meu corpo a partir do que ele pode, segundo
Deleuze, careço urgentemente de descobrir o que o meu corpo pode. Mas como? Por
onde começo? Por que brecha consigo espiar uma luz dentro de mim? Se nem eu
mesma sei que coisa sou, se me pego me descobrindo constantemente a medida que
mudo, se agora neste exato instante já não me reconheço à singela medida que te
escrevo? A mentira mais frequente é
a que se conta para si mesmo; mentir para os outros é relativamente a exceção.
Será que estou a me enganar? Será que eu sou eu? Preciso de um banho de mar,
antes das oito, pra ver se consigo pensar melhor! Vou lá, já volto...
Já não diferencio a verdade da mentira. Elas existem? Penso que talvez eu
viva um personagem daqueles que me levaram ao palco, um encontro que me trouxe arte,
criatividade, sucesso, palmas, vaidade, e me afastou da minha essência. Agora
vejo o quão perigoso foi esse encontro, ou, desencontro. Será? Que devir
preciso deixar fluir para encontrar o caminho que me leve ao meu encontro? Já
me remeto ao poeta Vinícius de Moraes imediatamente: “A vida é a arte do
encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Ele só pode ter escrito
esta frase para mim e para você, óbvio. Pois quanto mais eu me procuro, mais me
perco, quanto mais me encontro, deveras me perco de vista diante da imensidão
do céu que sou, dos personagens que encenei nos palcos da vida.
Sinceramente? Me coloco aqui no meu universo celestial particular
paralelo, numa areia branca colorida de crianças florindo, aqui sozinha, ou
acompanhada, querendo voltar à infancia, onde tudo era leve como a pluma da
pureza e da simplicidade.
Você não poderia ter me escrito algo menos distante das minhas mãos? Dos
meus olhos? Bendita hora que nos encontramos naqueles corredores
universitários, jogamos cartas, o eremita alumiou solarmente o nosso caminhar na direção
unânime dos mistérios da vida. Naquele momento, encontro, desencontro, você me
roubou a tranquilidade, me inquietou artisticamente. Quero dançar, rodopiar,
pirar, quero te roubar de você, te colocar na prateleira da sala e alimentar a
chama da minha curiosidade até que eu me ache, mesmo que para isso eu precise
te perder.
A intensidade desse nosso encontro
perfurou as entranhas da minha mente, me queimou de paixão pela Filosofia, como
não julgar? Devires explodindo neste exato momento sem a minima prudência.
Impossível. Duro. Catastrófico. Alucinante. Quero me perder, quero me esquecer,
você também vê se some, acho mais seguro. Respiro, respiro, por equilíbrio
minha alma grita, medito, medito, por paz minha alma suplica. Desse nosso
encontro quero distância. Você me roubou a paz imperceptivelmente. Ou será que
o fez consciente? Despertou minha loucura transcendental. Quero parar, não
consigo mais. Vibro, perdi o controle. Caos total, imanente, facilmente
cartografado, me leia e veja.
Você, ilustre Leonardo, ainda acha pouco e diz para eu construir o meu
mapa. Muito eloquente, muito perspicaz, muito poético. Ta certo, mas antes me
mostra o teu. Antes que eu chegue a psicótica conclusão de que estavas a me
seguir, de que não foi nada eventual, de que sua intenção era mesmo me roubar
de mim.
[Devires]
Quando me arrastas daqui, aonde
será que vou? Que potentia é essa, <<devires
>> incômodos, trêmulo? Estes devires que nos arrastam para lugares
completamente inusitados, devires de vida, que tal como um cavaleiro em cima de
seu cavalo, cavalga para novas terras, atravessando desertos, seguindo o fluxo.
“A questão ‘o que você está se tornando? ’ é particularmente estúpida. Pois à
medida que alguém se torna, o que ele se torna muda tanto quanto ele próprio” (DELEUZE;
PARNET, 2004. Pg. 3). Somente quando um fluxo desterritorializa-se é que ele
pode seguir em frente, conjugando com outros fluxos diverso, em suas diversas núpcias
e alianças. Devires e fluxos de morte, que estão sempre presentes, e é preciso
aceitá-los. "Minha ferida existia antes de mim, nasci para
encarná-la" (DELEUZE; PARNET, 2004. Pg. 79). Amor-fati, um amor à vida, a ponto de dizer sim a morte. Roubar é
também fazer devir. Pois o roubo, sempre se faz num entre, num espaço ainda não
determinado; Quando se rouba, nada se quer com o vizinho de quem o rouba, mas
sim o toma como intercessor e faz caminho, bifurca-o, a partir dele, ele. Uma
homenagem alguém dirá, ao intercessor. Um intercessor que abandonasse de o
trabalho da captura e do roubo, que se demorasse apenas em acompanhar e seguir
um movimento abandonaria assim toda a potência de criação (cf. DELEUZE, 1992).
Um encontro poderia ser simplesmente um traçar de um devir, a cartografia de um
roubo, ao mesmo tempo politico-ético-estético. Deleuze gosta muito de utilizar
o exemplo da vespa e da orquídea, diz ele:
A orquídea
parece formar uma imagem de vespa, mas, na verdade, há um devir-vespa da
orquídea, um devir-orquídea da vespa, uma dupla captura, pois "o que"
cada um se torna não muda menos do que "aquele" que se torna. A vespa
torna-se parte do aparelho reprodutor da orquídea, ao mesmo tempo em que a
orquídea torna-se órgão sexual para a vespa. Um único e mesmo devir, um único
bloco de devir. (DELEUZE; PARNET. 2004. Pg. 4)
[O
caminho para o destino feliz]
Logo
quando eu sair de casa, peguei o meu chapéu aquele chapéu de baeta, baeta pura
sai pela estrada a fora procurando um destino e o destino que me fizesse feliz e
que destino maravilhoso, que destino lindo eu ia correndo para encontrar.
Acontece que como se diz, quem procura encontra e quem encontra se encontra é
por que isso que eu falo do caxangá da folha miúda. O Caxangá da folha miúda,
quer dizer: uma coisa que não pode se transformar num 'canicantum', num
'amáfalo', num 'mavummavumpessÔ", rito valoso, 'amafalo'. Claro! Essas
palavras não são para ser entendidas, são para ser sentidas... como o som percussivo,
o som percussivo da vida. Ahh... Se as pessoas se ligassem no som percussivo da
vida. O que é? O que significa dizer? O que poder se chamar de som percussivo
da vida? Claro, é o som que embala a
alma. O som que embala a alma é o som percussivo da vida. É o som da água, é o
som do mar, é o som das flores, das folhas, da terra, da pedra e de todos os instrumentos
musicais. Sabe... é aquela coisa que agente não premedita, não vamo premeditar nada, porcaria nenhuma.
Não vamo premeditar nada! Por quê?
Quem premedita, não procura e jamais encontra. Você tem que sair com fé,
coragem, muita meditação, aquela vontade pura, que somente sai som da sua alma,
e ai agente se embala. Com aquele som, com aquela força... Até a dor! A dor
embala agente... (PASCOAL; et all,1992)
Referências
DELEUZE, Gilles. Conversações. Trad. Piter Pál Pelbart. Rio de
Janeiro: Ed 34, 1992.
DELEUZE,
Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad.
José Gabirel Cunha. Lisboa: Relógio D’Água, 2004.
DELEUZE,
Gilles. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002.
ESPINOSA, Baruch. Ética. São Paulo:
Abril Cultural, 1983.
PASCOAL,
Hermeto; et all. Chapéu de Beata. In.:
PASCOAL, Hermeto; & Grupo.
Festa dos Deuses. Polygram, 1992.
1CD. Faixa 16. (5min 27)
WOOLF, Virginia. As ondas. Vol. 5. Editorial
Galáxia, 2004.

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