CARTAS, TEMPO, ROUBO E ARTEFILOSOFIA
*Texto escrito por Dinamara Garcia Feldens e Mary Barreto Dória
Minha amiga,
Será que é o tempo ou o ciclo indelével da vida? Ou será o
tempo o ciclo intenso, velocidante e molecularmente refém da vida. Esperei mas não queria viver
o tempo do ciclo de intensidades provocantes da vida. Produzir os reversos –
rever – solitários e esquecentes de
radical entendimento.
Sinto medo de ser dês-surpreeendida por mim e por ela – a
vida. Talvez quisesse aquilo que sempre me deixou a deriva: uma suave
insensatez de entendimento, uns doces por-quês com o mundo e a busca sempre
minha e singular do saber e dos dês-saberes plurais e fortes. Nomadismos de
bando, a – sedentarismos de individuação, aposta no trágico, chamamento do
desejo, desafio para a queda de braços.
Entre a certeza e o aconchego do recolhimento e da proteção,
preferi o abismo sem lamentos ou mulherzices, aprendendo os recuos mais
sedentos, os horizontes mais inóspitos, aprendendo a viver das gotas a fartura
da sede saciada e a imprescindível possibilidade que a vida que é fértil e
provocadora cria e recria aquilo que não nos pertence. Trás e tira na mesma
benção e bondade vermelha. Os fortes param de perder porque aprendem que
perder, morrer e a impossibilidade dançam juntos no bailado com a alegria “amor
fati” chama-se o rochedo que aprofunda a dor da queda e de suas ranhuras, mas
que faz os instantes de vôo. Para estar no ar em absoluto, é preciso aprender o
instante e saber de sua altura. Temer pode nos jogar para as paredes rochosas e
pontiagudas, por isso me atiro no meio em velocidade de queda. Onde isso pode
nos levar? Espero fortemente que a lugar nenhum. O lugar nenhum é minha busca e
minha alegria. Um ser de arriscabilidades e de sim sabe que a velocidade
zero é preciosa e que nela os rochedos são navalhas que lhes servem de marcas
para serem riscadas na pele imanente de suas geografias, desenhos, rabiscos e
costuras, pregas que grafitam um corpo onde a vida e os acontecimentos tiveram
permissão de existir. “Digo: o real não
está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”
(ROSA, 2013. Pg. 128).
Embora a todos eles existam, é a permissão – acolhimento
nobre que os fazem ali permanecerem e se tornar dês-marcas, riscos em linhas de
fuga.
Também sinto saudades, mas aprendi a colocar a saudade para o
depois, já que ele é o mais próximo que se tem. Onde fica o depois? Para depois
dele e este é o imensurável “logo ali”.
Talvez já tenha mochila feita para percorrer as linhas em
palavras. Aliás, por vezes elas urgem porque o esquecimento, que é apenas a
substituição de intensidades apreendidas, pode as esvaziar.
As linhas em palavras re-editarão, nunca iguais, mas sempre
na diferença repetida.
Minha vida repete e repete e repete uma diferença que não me
deixa em mim. Desde criança esta diferença rebelística me desassossega e
desenha os tais riscos em minha pele. Cuspí-las em palavras seria recriar a
diferença sempre em outros códigos tão apreensíveis, tão fartamente como o
acontecimento de uma existência errante.
(...) A diferenciação remete não a um indiferenciado
prévio mas a uma Diferença que não para
de desdobrar-se e redobrar-se o outro em uma coestensividade do desvelamento e
do velamento do ser, da presença e do retraimento do ente. (DELEUZE, 2002. Pg.
147)
Outono tropical de 2015
Ah minha amiga, estar à deriva! Embriagar-se de ventos e
soltar as pipas no colorido dos tons de cinza da vida! Ser de bando. E de
sonhos embriagados. Sim, aposta no trágico. A diferença. Singularmente brutal
como o sim.
Um corpo amalgamado, sem órgão, sentido. Um corpo intensivo,
um conjunto de sensações. Um corpo que afeta e é afetado. Se arriscando na
velocidade zero. Minha querida, um corpo marcado, grafitado onde a vida
acontece. Permitida, existindo...
O corpo sem órgãos não é Deus, antes pelo contrário.
Mas divina é a energia que o percorre, quando ele atrai para si toda a produção
e lhe serve de superfície encantada miraculante, inscrevendo-a em todas as suas
disjunções. (DELEUZE, 2010, pg. 26)
Talvez a vida se esparrame no chão feito água que corre em
direção ao rio. Seguindo canais, procurando fendas. Nas rochas.
Precipitas. Correndo, lenta, sugada pelo
chão árido e rebrotando novamente no abraço da chuva. Perigosamente. Tudo
levando ao mesmo lugar. Nenhum lugar e todo lugar em que a água está. Se abrir
para novas disposições. Novos agenciamentos.
Outras pulsações. Para que possamos
seguir. Nômades que se recusam a ir embora, diz Deleuze, os que não se mexem.
Se contorcem. A arte que cobreia o
nosso corpo. Que arranca os nossos órgãos. Que in-sustenta a vida. Que suspende o tempo. Que tempo!Transes de
tardes que se alongam. Que faz lembrar a vida. Que faz sentir o tempo/duração
rebatendo o peito. No fio que liga o mar e o céu desse planeta que insiste em
se agigantar na singeleza dos encontros.
Linhas que se curvam na poesia da vida. Nos amores sem acordos. Nos
desejos diluídos. Nos possíveis.
Nas palavras acreditadas e sem sentido.
Me conte mais de você e saberei de mim. E saberei de ti. No outro nos ou-tramos.
Nas poesias dessentidas de Artaud vagueando entre ele. No entre. Na velocidade
do vento que para e leva o som para bem longe em campo aberto. No momento em
que o silencio ressoa nos ouvidos zumbidos que escuta longe.
A arte me atravessa nesse instante.
Alias, penso que em todos os instantes ela se atravessa em nós nos re-significando
embora ela nada quer significar. Muito mais atordoar, nos partir em mil pedaços
e percorrer outros trilhos. Na tragédia. Dionísio. Desconcertos. Tenho minhas
mochilas. Pego-as e tento seguir as linhas que me atravessam. Bom seria seguir
como a criança, sem esbravejar feito um leão. Brincar. Brincar. Brincar com a
vida, na vida. Se embriagar. E estar atento a ela. Como Deleuze sugeri.
Quero findar essa carta lembrando dos
encontros. Encontros com o mar.
Encontros com a vida. Com a natureza. Com as amigas, com a arte e a filosofia.
Com a arte de estar na vida. De compor a vida com os encontros entre aslinhas
que fogem à sua geografia.
Amiga brindemos os acordos acordados. Da
força. Do amor à vida. Aos encontros. Acordamos,despertos...
Os fortes param de perder! É nisso que
acredito sim. Meu corpo desorganizado é instrumento de intensidades. Querida,
sigamos intensamente a vida...
O tempo em que o homem era uma árvore sem órgãos nem função,
mas de vontade
e árvore de vontade que anda,
voltará.
Existiu, e voltará.
Porque a grande mentira foi fazer do homem um organismo,
ingestão, assimilação,
incubação, excreção,
o que existia criou toda uma ordem de funções latentes e que escapam
ao domínio da vontade decisora,
a vontade que em cada instante decide de si;
porque assim era a árvore humana que anda,
uma vontade que decide a cada instante de si,
sem funções ocultas, subjacentes, que o inconsciente rege.
Nós somos os 50 poemas,
o resto não somos nós,
(...)
(ARTAUD, 1988. Pg 105-110)
Referências
ARTAUD,
Antonin. Eu, Antonin Artaud. Lisboa:
Hiena Editora, 1988, p. 105-110.
DELEUZE,
Gilles. Dobra (a): Leibniz E O
Barroco. Papirus Editora, 1991.
DELEUZE,
Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo.
São Paulo, Editora 34, 2010.
ROSA,
João Guimarães. Grande sertão:
veredas. Nova Fronteira, 2013
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